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A História de Alagoas
Dos Caetés aos
Marajás
Jair Barbosa Pimentel
Introdução
Esse projeto é antigo.
Desde que ingressei no magistério, venho lutando para preencher uma
grande lacuna em meio a classe estudantil: um livro sobre a História de
Alagoas. Mas um livro em linguagem simples e jornalística, sem vícios e
sem censura. Lembrando o tempo antigo e fazendo uma comparação com os
acontecimentos atuais. Nunca consegui patrocinadores. Promessas, foram
muitas. Mas, sempre vinha a decepção. Era só “conversa fiada”.
Desdobrei-me no trabalho, juntei alguns trocados e, finalmente consegui
o dinheiro suficiente para pagar a gráfica. Produção independente, feita
com muito sacrifício, mas sem dever favor a ninguém. O caminho certo.
Não fiz festa de
lançamento, com o famoso “boca-livre”, onde a maioria dos convidados só
quer beber e comer de graça e não compra o livro. Optei pela propaganda
de boca-a-boca e algumas notas de jornal. Visitei escolas, repartições
públicas, empresas e entidades de classe, fazendo palestras, vendendo e
autografando os livros. Deu certo. Graças a Deus, vendi os 2 mil
exemplares. E mais: o Impacto Curso, através de seu proprietário,
Alberto Dehon, idealizou uma atividade extra-classe, que foi um sucesso:
o Bar Fera, reunindo 1.200 alunos num amplo restaurante, e
encarregando-me de ministrar uma aula-espetáculo. A cada intervalo,
música ao vivo, onde só se cantava músicas lembrando Alagoas. A edição
foi impressa na gráfica do próprio Impacto. Autografei cada exemplar,
entregando aos alunos.
A terceira edição de maio
de 2001, com 1 mil exemplares, foi vendida em menos de um ano. Enfim,
foram mais de 4 mil exemplares vendidos em apenas seis meses. Creio ser
um recorde em termos de mercado editorial em Alagoas.
Como avanço da Internet e,
aproveitando o espaço do meu jornal eletrônico REPÓRTER ECONÕMICO, entra
no ar mais essa edição. Um avanço da tecnologia.: ler um livro pela tela
do computador. Espero uma boa receptividade em meio aos internautas,
interessados em conhecer tudo que se passou em Alagoas desde os tempos
dos engenhos até agora nesse início de novo milênio.
A História de Alagoas dos
Caetés aos Marajás, é um relato da História desse pequeno Estado
brasileiro (o segundo menor, depois de Sergipe), que ao longo de quase
cinco séculos, vem demonstrando ao país, que tem um povo trabalhador,
honesto e sempre esperançoso. Escolhí esse título, lembrando os índios
Caetés, que foram os primeiros a manchar a imagem desta terra, com o
episódio do massacre de todos os tripulantes do navio que levava à
Portugal o primeiro bispo do Brasil, Dom Péro Fernandes Sardinha.
Obviamente , para eles (os índios), um fato normal. Afinal, nunca
tinham visto um branco. E, com tantas vestimentas. Imaginem como o
bispo estava vestido?
Marajás, foi um termo
muito utilizado pelo ex-governador e ex-presidente da República,
Fernando Collor de Mello, para designar os privilegiados funcionários
públicos, que recebem altos salários e pouco ou nada produzem. Na
realidade, o termo vem da Índia, numa alusão aos ricos e poderosos
daquele país, onde 90% da população de quase 1 bilhão de habitantes,
vive na miséria.
Faço um relato de todos os
acontecimentos importantes da verdadeira História de Alagoas, com base
em pesquisa realizada ao longo dos últimos anos. Opino, porque sou um
formador de opinião, tanto como jornalista, tanto como professor. Abro o
debate. Sempre agi assim. Conto fatos que geraram escândalos, culminando
com renúncias de governadores e até mesmo um impeachment, o primeiro
concretizado no país. As oligarquias políticas que sempre dominaram o
Estado até chegar ao “pulo do gato”, que é a ascensão da esquerda aos
governos do Estado e de Maceió.
As sucessivas crises
econômicas; alguns anos de crescimento; a descoberta das belezas
naturais da terra pelos turistas do país e do exterior, e o crescimento
rápido de Maceió. A miséria, o desemprego, as doenças endêmicas, o
analfabetismo e a mortalidade infantil, esses dois últimos ítens,
colocam o Estado como campeão nacional. Enfim, uma História “nua e
crua”, contada por um contador de histórias, que não tinha escapatória:
virou um jornalista.
No tempo dos Dinossauros
Os arqueólogos comprovam:
Alagoas foi habitada por dinossauros. Vez por outra, aparece alguém
confirmando que viu inscrições em pedras; descobriu ossos de animais
pré-históricos e outros objetos que existiram na pré-história.
O historiador Jayme de
Altavilla, em seu livro História da Civilização de Alagoas, refere-se a
uma variedade de documentos arqueológicos, encontrados ao longo dos anos
em várias regiões.
Em Santana do Ipanema, no
vale do rio Caiçara, foram encontrados esqueletos de animais
pré-históricos. Também surgiram vestígios desses animais em Viçosa e
São Miguel dos Campos. Em Anadia, no sítio Taquara, descobriram um
cemitério de índios.
O historiador viçosense,
Alfredo Brandão, também é outro que fala em seus livros sobre a
pré-história em Alagoas. Afirma que na propriedade Pedras de Fogo (da
família Loureiro), encontra-se uma pedra com diversas cruzes gravadas,
sendo uma delas tão bem gravadas que passa por milagrosa. Também fala em
inscrições descobertas em pedras nos municípios de Capela, Atalaia,
Porto de Pedras e Anadia. Sua coleção de instrumentos de pedras, como
tambetá, machadinha e outros, está exposta no Instituto Histórico e
Geográfico de Maceió.
Nas margens do rio São
Francisco, já descobriram muitas ossadas de animais pré-históricos. É
uma região, comprovadamente habitada naquela época. Um museu instalado
no Xingó Parque Hotel, expõe muitos objetos arqueológicos descobertos
por toda aquela imensidão de terras. No Centro de Apoio da Hidrelétrica
de Xingó, do lado alagoano, existe uma exposição fixa de arqueologia.
Terra à
vista
Quando o Brasil foi
descoberto, a terra que constitui hoje o Estado de Alagoas, era um
mundo de mata virgem, onde viviam índios nativos. Rios perenes, muito
peixe, frutas, animais soltos. Enfim, a flora e a fauna exuberantes,
enchiam os olhos dos portugueses que foram chegando para iniciar o
processo de colonização.
A grande quantidade de
lagoas em seu litoral, fez com que os colonizadores batizassem logo a
região de Alagoas. Elas continuam embelezando a paisagem típica do
Estado, se constituindo em pontos de atração turística e ainda em
sustento de milhares de alagoanos, que tiram dela, o peixe e o sururu,
molusco típico, consumido não só pelos pobres, mas presente na mesa dos
ricos, da classe média e dos bares e restaurantes.
Esse pedaço de terra
brasileiro, entre o Litoral e o Sertão, pertencia a Capitania de
Pernambuco, comandada pelo donatário Duarte Coelho, que em visita ao
Sul, deparou-se com o rio São Francisco. Lá, edificou um forte e deu
origem a cidade de Penedo, comprovadamente o primeiro núcleo
habitacional de Alagoas. Hoje, é uma cidade das mais importantes do
Estado. Durante várias décadas, foi a mais progressista do interior.
Perdeu para Arapiraca na segunda metade deste século. Mas continua
imponente, com seu casario colonial, seu povo culto, seu potencial
turístico e sua economia que cresce a cada dia.
Imaginemos Alagoas nos
tempos do descobrimento do Brasil! Da foz do São Francisco a Maragogi:
índios nativos como os Caetés e os Potiguaras. Nus, livres, vivendo da
caça e da pesca, falando língua própria, usufruindo dessa beleza
natural, com rios e lagoas sem poluição. Um povo festeiro, cultuando
suas tradições. Era feliz e livre da presença do branco português, que
aqui chegou para marginalizá-lo, exigir que aprendesse sua língua, sua
religião e seus costumes. Todos perderam a identidade, e se tornaram
escravos da ganância dos colonizadores, que só queriam extrair a riqueza
da terra e enviar para Portugal.
Nossos índios eram
vaidosos, festeiros e valentes. Adoravam se pintar com várias cores,
dançar e cantar. Achavam o nariz chato um importante requisito de
beleza. No Sul eram os Caetés e suas sub-tribos, como a dos Caambembes,
instalada em Viçosa. No Norte, os Potiguaras. As demais tribos, eram:
- Abacatiaras,
que viviam nas ilhas do rio São Francisco.
- Umans,
no alto Sertão, às margens do rio Moxotó.
- Xucurus,
em Palmeira dos Índios.
- Aconans,
Cariris, Coropotós e Carijós, às margens do São Francisco.
- Vouvés
e Pipianos, no extremo ocidental de Alagoas.
Esses nativos alagoanos
eram bronzeados do sol escaldante, moravam em cabanas de palha, reunidas
em forma de aldeias e viviam da caça e da pesca. Promoviam festas,
utilizando-se de instrumentos musicais como corneta, flauta e maracá. Em
combate, atiravam sobre o inimigo, flechas envenenadas e sobre as
aldeias, flechas com algodão inflamado, para incendiá-las.
As índias alagoanas
trabalhavam muito. Fiavam algodão para confeccionar cordas e redes e
ainda fabricavam vasos de barro para uso doméstico. O adultério era
considerado crime.
Nas aldeias, todos se
reuniam em forma de República. O chefe maior era o Cacique, escolhido
entre os mais velhos e respeitados. O Pajé era o conselheiro espiritual.
Nas grandes crises, eles se reuniam em conselhos, denominados Carbés.
Hoje, Alagoas tem as
seguintes tribos:
- Xucurús, em Palmeira dos
Índios, muito bem organizada, já toda civilizada, com escola, posto de
saúde, posto telefônico e outros benefícios.
- Cariris,
em Porto Real do Colégio, também com toda a infra-estrutura econômica e
social, funcionando.
- Tingui-Botós,
em Feira Grande.
- Wassus em Joaquim Gomes,
e uma outra descoberta recentemente, ainda em estudo na Funai – Fundação
Nacional do Índio, para constatar sua verdadeira identidade. É um
pequeno grupo que vive no alto Sertão alagoano.
Assim era Alagoas na época
do descobrimento do Brasil. Esse pedaço de Brasil, abençoado pela
natureza, livre, com a Mata Atlântica exuberante, os rios e lagoas de
águas cristalinas.
Os
colonizadores
A primeira expedição ao
Sul da Capitania de Pernambuco, foi conduzida pelo próprio donatário,
Duarte Coelho, que saiu do Recife beirando o litoral até chegar a foz do
rio São Francisco. De lá, rio acima, deparou-se com um local
privilegiado pela natureza, com o rio cheio de pedras. Edificou um forte
e deu origem a povoação de Penedo.
Duarte Coelho, segundo os
historiadores, era dotado de muita capacidade administrativa e devotado
a causa do governo português. Suas cartas ao Rei Dom João III, eram
verdadeiros relatos sobre a riqueza da capitania, suas paisagens e os
índios. Fundou Olinda, fez aliança com os índios e iniciou o plantio da
cana-de-açúcar, dando origem aos primeiros engenhos.
Mas toda essa
extensão de terras, entre o Litoral e o Sertão precisava ser colonizada.
Aí surge a figura de um alemão: Cristhovan Lintz, depois aportuguesado
para Cristovão Lins. Ele vivia em Portugal, onde casou-se com Adriana de
Hollanda, filha do holandês Arnault de Hollanda e da portuguesa Brites
Mendes de Vasconcellos Hollanda. O casal desembarcou no Recife, na
primeira metade do século do descobrimento (XVI) e ganhou uma imensa
sesmaria, compreendendo o Cabo de Santo Agostinho até o vale do rio
Manguaba.
O segundo colonizador foi
o português Antonio de Barros Pimentel, casado com Maria de Hollanda
Barros Pimentel, irmã da mulher de Cristovão Lins. Ele chegou ao porto
da Barra Grande (Maragogi), ainda com a roupa que usava na Corte, em
Lisboa. Era um nobre, descendente de uma das mais importantes famílias
de Portugal, originária da cidade de Viana, mas com os seus ancestrais
surgidos na Espanha. Ganhou uma sesmaria que compreendia as terras entre
os rios Manguaba, passando pelo Camaragibe e chegando ao rio Santo
Antonio, em São Luiz do Quitunde. Construiu engenhos de açúcar e criou
gado.
A sesmaria que compreendia
às margens das lagoas Mundaú e Manguaba, pertencia ao português Diogo
Soares, enquanto em São Miguel dos Campos, o dono das terras era Antônio
de Moura Castro e as de Penedo, comandadas por Rocha Dantas. Outras
sesmarias de menor porte, foram surgindo em vários pontos de Alagoas.
Os engenhos
A História de Alagoas é a
história pela posse da terra. Doadas as sesmarias, os novos
proprietários procuraram logo fazer a derrubada das matas e plantar
cana-de-açúcar, surgindo os engenhos banguês que sustentaram a economia
alagoana durante quatro séculos, até serem substituídos pelas usinas.
Os primeiros engenhos
surgiram nos vales dos rios Manguaba, Camaragibe e Santo Antônio, na
região Norte de Alagoas. A terra fértil, logo adaptou-se a essa nova
atividade. E, assim, começa a formar-se a chamada aristocracia
açucareira, com as grandes famílias dominando a economia.
O escritor Manoel Diegues
Júnior, em seu livro O Banguê das Alagoas, faz um relato apaixonado
dessa atividade que iniciou o processo de desenvolvimento
sócio-econômico e cultural da Comarca, Capitania e Província de Alagoas.
Mostra os costumes e tradições, a religiosidade, o domínio político, o
folclore saído dos engenhos, enfim, um estudo de sociologia rural, que
deveria ser lido por todos aqueles que realmente se interessam pela
História desse povo bom, trabalhador, honesto e hospitaleiro, que é o
alagoano.
Os engenhos banguês das
Alagoas eram movidos a animais. Produziam o açúcar, o mel e a rapadura.
Logo que eram construídos, seus proprietários procuravam também edificar
uma Igreja. A casa grande emoldurava a beleza da paisagem típica da
região. Algumas eram luxuosas, com móveis e objetos importados. A
senzala, onde viviam os escravos amontoados; a bagaceira; a casa de
purgar; o armazém (empório comercial) e outras edificações, formavam um
povoado.
Os primeiros engenhos
foram construídos por Cristovão Lins, o alemão que se constituiu no
verdadeiro colonizador de Alagoas. Ele batizou logo com os nomes de
Escurial, Maranhão e Buenos Aires. Ficavam no atual município de Porto
Calvo, que ele também fundou na segunda metade do século XVI.
Depois foram surgindo
outros engenhos, já com o segundo colonizador, Antônio de Barros
Pimentel, casado com Maria de Hollanda, irmã da mulher de Cristovão
Lins. Esse casal fixou-se às margens do rio Camaragibe, terras hoje
pertencentes aos municípios de Matriz e Passo de Camaragibe. Mas a sua
sesmaria atingia ainda o vale do rio Santo Antônio, onde também edificou
engenhos, como o próprio Engenho Santo Antônio, que funcionou por mais
de três séculos, até ser transformado na atual e moderna Usina Santo
Antônio, em São Luiz do Quitunde, desde a década de 1950, pertencente a
família Correia Maranhão.
Outros engenhos foram
surgindo nos vales dos rios São Miguel, Coruripe, Mundaú e Paraiba. E a
atividade dominou a economia alagoana. O açúcar seguia para a Europa
através do porto do Francês, saindo dos engenhos em lombo de boi ou
burro, atravessando montes e rios, até chegar a vila do Pilar, e daí,
seguindo em barcaças, passando pela velha capital (atual Marechal
Deodoro) e atingir o porto.
Hoje, o transporte é
rápido e seguro. Das usinas, saem os caminhões-tanque, com o açúcar a
granel, atravessando estradas asfaltadas e chegando à Maceió, onde é
descarregado no Terminal Açucareiro do Porto de Jaraguá em fração de
minutos, saindo por uma esteira rolante e chegando ao porão dos navios,
para daí seguir para a Europa, América do Norte, Ásia, África e outros
Continentes, garantindo a Alagoas uma boa posição (segundo lugar a nível
nacional) na produção de açúcar, perdendo apenas para São Paulo.
Costumes
e tradições
O dia-a-dia nos engenhos
alagoanos dos séculos XVII, XVIII e XIX, era muito diferente do das
atuais usinas e destilarias. Não existem mais escravos, e sim
trabalhadores, mas que continuam servis aos patrões. A maioria sem
carteira assinada, ganhando pelo que produz. Os escravos eram negros,
enquanto os trabalhadores atuais são mestiços, brancos ou negros. Os
costumes e tradições mudaram muito.
Não existem senzalas, mas
casas populares, em algumas usinas. A maioria preferiu deixar os
trabalhadores morando nas cidades próximas e garantir o transporte para
a usina ou o canavial. Assim, se ver livre do vínculo empregatício e a
obrigação de garantir moradia e outros benefícios sociais. A casa
grande, ainda existe. Mas geralmente o usineiro, vive mais na capital,
em confortáveis mansões ou apartamentos luxuosos do Farol ou dos bairros
da orla marítima.
As sinhazinhas (filhas dos
senhores de engenho) eram preparadas para casar logo que chegassem a
adolescência. Estudavam as primeiras letras com professores particulares
na própria casa grande, aprendiam noções de latim e francês; bordavam,
cozinhavam e liam poesias. Eram românticas, mas dificilmente casavam por
amor, sendo obrigadas a casar - na maioria das vezes, logo que iniciavam
a adolescência - com primos legítimos e até tios. Tudo para preservar o
patrimônio da família.
As patricinhas (filhas dos
usineiros) são meninas livres, que vivem a doce vida de filhas de
milionários, viajando para o exterior, estudando nos melhores colégios
da cidade, ou mesmo fora do país; usam roupas de grifes famosas e não
mais são obrigadas a casar com quem o pai quer, embora que dificilmente
procurem algum rapaz pobre. Algumas chegam a engajar-se no trabalho da
usina, logo que terminam a universidade, seja como administradoras de
empresas ou assistentes sociais, economistas, advogadas, médicas,
dentistas ou qualquer outra profissão de nível superior. Os rapazes,
também participam da atividade produtiva do patrimônio da família, na
maioria das vezes, já como profissionais de nível superior, seja como
engenheiro, agrônomo ou administrador de empresa.
Hoje, as senhoras dos
usineiros, procuram trabalhar também na própria usina, ajudando o marido
em atividades sociais, como a assistência às famílias dos trabalhadores.
Já não são mais aquelas matronas, que se enfurnavam na casa grande, só
cuidando das atividades domésticas e gerando filhos. Algumas optam pela
vida produtiva na capital, atuando em atividades do comércio, como
boutiques de marcas sofisticadas. Mas, são produtivas, atualizadas,
viajadas e não mais esbanjam riquezas.
Nos engenhos, as festas
eram restritas a casa grande. Os escravos ficavam nas senzalas,
cultuando suas tradições africanas. Eram proibidos de, pelo menos,
observar os festejos realizados pelos patrões, que comemoravam as festas
do santo padroeiro, as de São João e São Pedro; o Natal e o Ano Novo,
além de casamentos, aniversários, batizados e outras cerimônias. A
capela, era o centro de todas as atenções.
Nas usinas desse início de
século, realizam-se festas promovidas pelos trabalhadores, geralmente
em clubes sociais administrados por eles próprios. Ao invés do autêntico
folclore típico da zona canavieira, dançam e cantam o axé-music. As
moças usam mini-saia ou calça colada ao corpo. Pouco se diferenciam das
filhas do patrão. Vez por outra, aparece alguma dessas filhas do
proletariado, usando uma calça jeans de marca famosa, comprada a
prestação numa boutique da capital.
Ao invés do barracão
(armazém de venda de alimentos) dos antigos engenhos, os trabalhadores
das usinas, compram em supermercados ou mercadinhos das cidades
próximas, ou mesmo na feira-livre. Os hábitos alimentares mudaram
muito. Recebem seus salários no último dia útil da semana, e logo
providenciam o abastecimento da cozinha, que dispõe de fogão a gás,
geladeira, liquidificador e outros eletrodomésticos.
A televisão é a
responsável pela mudança de hábito do homem do campo. Nas usinas, o
trabalhador fixo, que dispõe de casa, já exibe no telhado, uma antena
parabólica. Os filhos crescem vendo Xuxa, Angélica, Ratinho e muito
mais.
Em algumas usinas, cujos
proprietários são mais conscientes da realidade econômica e social, que
prioriza a assistência ao trabalhador, funcionam escolas e creches para
as crianças, além de assistência médica e odontológica. Nos engenhos
banguês, crianças filhas de escravos ou trabalhadores brancos, não
frequentavam escolas, que eram só para os filhos dos patrões.
Existem bons exemplos de
como conduzir uma empresa moderna, pensando no social: A Caeté, do Grupo
Carlos Lyra ; Coruripe, do Grupo Tércio Wanderley; Leão (Rio Largo), do
Grupo Leão; Santo Antonio (São Luiz do Quitunde), do Grupo Correia
Maranhão; Porto Rico (Campo Alegre), do Grupo Olival Tenório, entre
outras.
As vilas
Quando o primeiro
donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho visitou o Sul do seu
domínio, deslumbrou-se com a região do baixo São Francisco, parando num
local e dando início a povoação de Penedo. Lá construiu um forte , e daí
em diante, foram surgindo novos moradores, culminando com o aparecimento
da primeira vila fundada em Alagoas.
No século XVII, já
despontando como a mais importante vila do Sul da Capitania de
Pernambuco, foram sendo construidas as primeiras Igrejas e o convento,
além de prédios diversos. Terra fértil, logo foi atraindo agricultores
que plantavam todo tipo de lavoura, além do crescimento rápido da
pecuária. O comércio expandiu-se. Penedo já era a mais importante vila,
bem mais desenvolvida do que a chamada “cabeça-de-comarca”, a vila de
Alagoas (atual Marechal Deodoro).
Hoje, Penedo esbanja
progresso. Detém um comércio bem movimentado, várias agências bancárias,
ligações com o país e o mundo através do DDD/DDI, indústrias de álcool e
outros setores; uma sólida formação cultural, com várias escolas de
primeiro e segundo graus, além de uma Faculdade, jornal, rádios, teatro
e festas tradicionais. O Relatório Estatístico de Alagoas, de 1998,
aponta uma população de 40.554 habitantes na cidade e mais 13.888 na
zona rural. É tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Durante vários
anos, foi a mais desenvolvida cidade do interior alagoano, perdendo esse
posto para Arapiraca, na década de 1960. Sua decadência, começou quando
foi construída a ponte sobre o rio São Francisco, em Porto Real do
Colégio, ligando Alagoas a Sergipe. A travessia de carros e passageiros,
ainda continua na cidade, ligando-se ao outro lado do rio, através do
rio. Mas o movimento mais intenso mesmo ficou por conta da ponte
rodo-ferroviária.
Mas aos poucos, a cidade
foi soerguendo sua economia, e hoje é importante centro econômico e de
turismo cultural. Durante alguns anos, realizava o Festival de Cinema,
atraindo artistas e intelectuais de várias partes do país. Mantém o
Festival de Tradições Culturais, a Festa do Bom Jesus dos Navegantes,
Gincana de Pesca e Arremesso, Penedo Fest e outros eventos de
significativa importância sócio-econômica, como seminários, congressos,
simpósios, peças de teatro, etc. Suas Igrejas, seus sobrados e a beleza
do rio São Francisco atraem muitos turistas, que dispõem de bons hotéis,
restaurantes e passeio de barcos pelo rio, indo até a foz, na praia do
Peba.
Ainda no século XVII,
emancipa-se o Povoado de Porto Calvo, tornando-se a segunda Vila. Sua
Igreja, concluída em 1610, garantiu o título de primeira Freguesia
fundada em Alagoas, antes da de Penedo. Preserva ainda seu alta-mor,
todo em madeira, com a imagem de Nossa Senhora da Apresentação (sua
padroeira), do Cristo crucificado e de Nossa Senhora da Conceição.
Palco da luta dos
holandeses pela colonização de Pernambuco, Porto Calvo ergue-se em uma
colina, onde abaixo um imenso vale cortado pelo rio Manguaba, é ocupado
por canavial, pastagem e lavouras de vários tipos. Terra fértil, logo
foi atraindo novos moradores. E a vila cresceu, esbanjou progresso, mas
foi decaindo ao longo dos séculos, somente ressurgindo no atual. Hoje,
detém um comércio em franca ascensão, agências bancárias, sistema de
telefonia fixa e celular e toda a infra-estrutura para se desenvolver
mais ainda. O Relatório Estatístico de Alagoas, versão 1998, aponta uma
população de 24.150 habitantes, sendo 12.798, na cidade. Pouca coisa
lembra o seu passado. A Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, é a
única construção secular. Alguns sobrados construídos no início do
século XX e, ainda o Alto da Forca, onde dizem ter sido enforcado um
dos seus filhos mais ilustres: Domingos Fernandes Calabar.
A terceira povoação
fundada em Alagoas, foi Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, alusão a
lagoa Manguaba, onde está edificada às suas margens. A Lagoa do Norte, é
a Mundaú, que banha Maceió, Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte e Satuba.
A vila foi crescendo e, logo no século XVIII tornou-se cabeça-de-comarca,
espécie de capital. Quando da invasão holandesa, foi quase toda
destruída, com suas casas sendo incendiadas pelos invasores. Mas,
recuperou logo, e cresceu novamente. Na emancipação política de Alagoas,
já com o nome de Alagoas, foi escolhida como capital da nova Capitania.
Perdeu espaço para Maceió, que surgiu no século XVII, através de um
engenho banguê.
Seu patrimônio histórico é
rico em beleza arquitetônica, como o Convento e o Museu de Arte Sacra; a
matriz de Nossa Senhora da Conceição; o Palácio Provincial; a casa onde
nasceu o marechal Deodoro; a cadeia pública e tantos outros monumentos,
além do casario colonial e a beleza da lagoa Manguaba.
Hoje, é uma cidade em
pleno desenvolvimento sócio-econômico, com boa rede de educação e saúde
(possui uma Escola Técnica Federal e colégios de primeiro e segundo
graus), além de hospitais e postos de saúde. Detém o Distrito
Multifabril, com várias fábricas, gerando empregos e impostos para os
cofres públicos, além da usina Sumaúma (açúcar e álcool). Figura entre o
quarto maior município arrecadador de ICMS. É importante centro
turístico, com seu patrimônio histórico intocável, e a praia do Francês,
conhecida em todo o país. Sua população, segundo o Relatório Alagoas, é
de 28.215 habitantes, sendo 17.451, na área urbana.
A quarta povoação fundada,
foi Santa Luzia do Norte, às margens da Lagoa Mundaú. Quase era
destruída pelos holandeses, mas a força de sua população liderada por
dona Maria de Souza, impediu a invasão. Eles recuaram e a vila continuou
em seu ritmo normal. Muitos anos depois, foi rebaixada condição de
vila, ficando pertencendo à Rio Largo, só se emancipando na década de
1960. Hoje, dispõe de uma importante fábrica de fertilizantes e investe
também no turismo. Detém uma população de 6.397 habitantes, sendo 5.139,
na cidade.
Palmares
– grito de liberdade
Os negros africanos, que
chegavam aos montes aos engenhos de Alagoas, logo que foi autorizado o
tráfego negreiro, viviam como escravos, sendo maltratados, e trabalhando
para enriquecer o patrão branco. Obviamente que eram revoltados e
procuravam a todo custo, conquistar a liberdade.
Era preciso que surgisse
um líder da raça, que incentivasse os demais a lutar pela tão sonhada
liberdade. E, assim entra em cena, Ganga Zumba, que levou um grupo de
negros para um local distante dos canaviais, no alto da Serra da
Barriga, no atual município de União dos Palmares. Os engenhos
localizavam-se nos vales dos rios Manguaba, Camaragibe e Santo Antônio.
A notícia foi se espalhando e a cada dia, chegavam mais negros
fugitivos.
Logo batizaram o local de
Quilombo dos Palmares. Terra fértil, boa para o plantio de qualquer tipo
de lavoura, foi se tornando um importante centro produtor. Os negros
construiram uma verdadeira civilização, assim como era na África. Ganga
Zumba se constituia no Chefe de Governo e tinha seus Ministros.
Formou-se então uma verdadeira República Parlamentarista. Um avanço na
época. Lá, eles viviam livres, falavam seu próprio idioma, não eram
maltratados pelos brancos e podiam cultuar suas tradições religiosas e
festivas.
Vez por outra, os
portugueses, brasileiros e até os holandeses, tentaram acabar com esse
refúgio dos negros. Não conseguiram. A população negra era mais numerosa
e organizada. O tempo foi passando, e Ganga Zumba já não conseguia ter
forças para liderar a comunidade. Na tradição africana, a
hereditariedade era passada de tio para sobrinho. E, assim ele escolheu
um desses sobrinhos: Zumbi, um jovem negro, forte, educado por um padre
de Porto Calvo, que logo afeiçou-se a causa da liberdade, integrou-se ao
Quilombo, e tornou-se o maior líder revolucionário da História do
Brasil, finalmente reconhecido por decreto assinado pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso, em 20 de novembro de 1995, exatamente quando
o país reverenciava os 300 anos de sua morte.
Zumbi era um líder nato.
Sua companheira Dandara, uma mulher forte, guerreira, que liderava o
grupo feminino. Organizado, logo pôs ordem no Quilombo, nomeando seus
assessores e distribuindo tarefas para toda a população, que era
preparada para a batalha. Quando esse dia chegava, ninguém dormia. O
quilombo fervia. Eram homens, mulheres e crianças de prontidão para o
ataque. E foram vários.
Por quase um século o
Quilombo dos Palmares resistiu. Mas em novembro de 1695, os brancos
conseguiram subir à Serra da Barriga. Era um grupo numeroso e fortemente
armado, liderado por Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira. O sangue
jorrou. Milhares de negros foram barbaramente assassinados. Zumbi
conseguiu fugir acompanhado de alguns de seus companheiros. Lutou até o
fim, quando viu tudo que construiu ser destruído e seus irmãos de cor,
sendo mortos.
Existem duas versões sobre
a morte de Zumbi. A primeira é a de que ele suicidou-se, pulando de um
precipício na Serra da Barriga. Mas os historiadores da época, afirmam
que ele foi assassinado mesmo, depois de alguns dias da destruição total
do Quilombo. Sua cabeça foi cortada e levada ao Recife, para ser exposta
ao público como um troféu. Era o dia 20 de novembro de 1695. E depois de
três séculos, essa data vem sendo lembrada como o Dia Nacional da
Consciência Negra. A cada ano, centenas de negros e brancos sobem à
Serra da Barriga nesse dia, para reverenciar Zumbi e sua raça.
O local é tombado pelo
Patrimônio Histórico Nacional. Mas precisa melhorar sua infra-estrutura.
Foi construida uma vila cenográfica, lembrando o ´próprio Quilombo. No
alto da serra, existe uma estátua, lembrando a figura do líder maior,
mastro para bandeiras e muito espaço, com o verde predominando por todos
os lados. Além, é claro, de um bonito visual para toda a zona da Mata. É
uma das mais altas serras do Estado.
O projeto para construção
do Memorial Zumbi, já existe. Mas continua engavetado. Faltam recursos
financeiros. É sempre assim: Quando se pensa em cultura, não existe
dinheiro do governo, que só beneficia mesmo os banqueiros e outros
grandes produtores. Seria a construção de um espaço cultural no alto da
serra, com museu, biblioteca e teatro. A luta dos movimentos negros,
continua. Já apresentaram vários avanços. A própria cidade de União dos
Palmares, lembra seu passado histórico. Em vários pontos, vê-se o nome
de Zumbi e do Quilombo dos Palmares. Em Maceió, existem as praças Ganga
Zumba e Zumbi dos Palmares, além de uma escola municipal. O aeroporto
também lembra esse episódio que se constituiu no primeiro grito de
liberdade do Brasil.
Terra prometida
A fertilidade da terra que
depois transformou-se em Capitania, Província e Estado de Alagoas,
atraía muita gente. E, com o avanço da invasão de outros povos europeus
ao Brasil, logo esse pedaço da então Capitania de Pernambuco, ficou
muito visado.
Primeiro foram os
franceses, que chegaram para explorar o pau-brasil. Não passaram muito
tempo, mas deixaram uma marca: a construção do primeiro porto, que ficou
conhecido como Porto dos Franceses, aproveitado depois como único porto
da região, para o transporte do açúcar em demanda a Portugal. E foram
quase três séculos com esse local contribuindo decisivamente com o
progresso de Alagoas, até o surgimento do Porto de Jaraguá. Hoje, ainda
existe um resquício aquela época: a carcaça de um navio francês, que,
quando a maré está baixa, fica bem visível. E esse curto período vivido
pelos invasores, imortalizou-se na História e está com o nome na “boca
do povo”. É a praia do Francês, a mais badalada do litoral alagoano,
conhecida no país e no mundo, como uma das mais bonitas do Brasil.
Pertence ao município de Marechal Deodoro, distante poucos quilômetros
da capital.
Mas a fase mais duradoura
dessas invasões, foi mesmo a dos holandeses, que transformaram a
Capitania de Pernambuco no Brasil Holandês. E muito contribuiram para o
seu desenvolvimento, embora Alagoas não tenha experimentado essa fase de
apogeu, que restringia-se mais ao Recife e Olinda. Por aqui, foi mais
destruição, como ocorreu com a Vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do
Sul (atual Marechal Deodoro), completamente incendiada pelos holandeses,
que ainda tentaram fazer o mesmo em Santa Luzia do Norte, não
conseguindo, devido a ação rápida de seus moradores, liderados por dona
Maria de Souza. Em Penedo, construiram um forte, depois destruído pelos
brasileiros e portugueses, que não queriam qualquer lembrança dessa
fase.
Um outro episódio que
marcou a presença dos holandeses em Alagoas, foi a Batalha da Mata
Redonda, uma alusão ao local (hoje pertencente ao município de Porto de
Pedras) onde ocorreu a mais sangrenta batalha entre holandeses,
portugueses e brasileiros, vencida pelos primeiros, por ter um maior
arsenal e maior contingente de homens.
Mas os holandeses
liderados por Maurício de Nassau, muito fizeram por Pernambuco. A
cultura, a educação, o avanço na agricultura e na pecuária. Enfim, uma
civilização que eles queriam formar, e transformar numa colônia
desenvolvida. Construiram pontes (ainda existentes), teatros e outras
grandes obras no Recife, cidade que ainda hoje lembra esse período de
desenvolvimento cultural e econômico. É notório o gosto pela cultura do
povo pernambucano, notadamente de Recife e Olinda. Por lá, surgem
movimentos culturais que se expandem Brasil afora. O próprio frevo é
criação dos pernambucanos.
Os holandeses eram
protestantes (evangélicos), mas não impunham essa religião aos
brasileiros que eles já dominavam. Assim a religião católica continuou
sendo forte na Capitania. Preocupavam-se com a educação, implantando
métodos avançados de alfabetização para crianças e adultos.
Maurício de Nassau, foi
inegavelmente o maior administrador que o Brasil já teve. Era
organizado, trabalhador e extremamente ético, qualidades que os demais
donatários portugueses não possuiam, optando mesmo pela exploração, a
escravidão dos negros e índios e o aumento da produção de açúcar para
enviar a Portugal.
Calabar – herói ou traidor?
Chamava-se Domingos
Fernandes Calabar, um mulato filho de dona Ângela Álvares, nascido na
Vila de Porto Calvo. Estudado, rico e com espírito de liderança, avançou
no seu tempo. Mesmo assim, ainda era discriminado pelos brancos
portugueses e brasileiros, por sua condição de mestiço e filho bastardo.
Possuia engenhos de açúcar, muito dinheiro, estudou em Olinda, era culto
e muito bem informado.
Quando da Invasão
Holandesa à Porto Calvo, lutou ao lado de seus conterrâneos contra esses
invasores. Mas logo foi percebendo que eles tinham um projeto de
colonização muito mais avançado e ético do que o dos portugueses. Não
contou conversa: passou para o lado dos holandeses.
Começa então, a história
desse bravo alagoano, que alguns historiadores afirmam ter sido traidor,
mas que ele próprio nunca se considerou assim. Deixou uma
carta-testamento, mostrando a sua decisão. Nela, alegava que não se
considerava traidor, porque o Brasil não era uma pátria. E que o projeto
dos holandeses era muito melhor para os brasileiros. Mas não foi
compreendido, obviamente.
Calabar viveu as
experiências mais desastrosas daquelas época. Acompanhava os holandeses
em suas batalhas, destruindo engenhos e fazendas. Sabia que tudo aquilo
que acontecia era porque seus conterrâneos não aceitavam a proposta de
colonização dos invasores, optando mesmo pelos portugueses, já que eram
descendentes destes.
Por conhecer Recife e seu
avançado projeto de desenvolvimento econômico-cultural, queria que tudo
aquilo fosse implantado em Porto Calvo e Penedo. Não conseguiu. Seus
conterrâneos venceram. Mas ele deixou bem patente em sua carta, que
preferia derramar seu sangue por uma causa justa, que ele abraçou, do
que viver sob o domínio mesquinho dos portugueses, que só queriam mesmo
explorar os brasileiros. Foi morto e esquartejado, com partes do seu
corpo distribuidas pelas ruas da Vila de Porto Calvo. Mas, os holandeses
conseguiram recuperar tudo e fizeram o seu enterro com honras militares.
Passou para a História da Holanda, como herói. A História do Brasil, o
considera um traidor. Mas era escrita pelos portugueses. Na Holanda, ele
é um herói. Existe até uma praça no Centro de Amsterdã, com seu nome,
além de livros e documentos que comprovam as idéias de colonização desse
bravo alagoano.
Hoje, Porto Calvo só tem
como monumentos para lembrar a sua importância na História de Alagoas,
a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, inaugurada em 1610
(existe no alto de sua fachada, essa data), com seu alta-mor em madeira,
originalíssimo e as imagens da sua padroeira, de Cristo crucificado, de
Nossa Senhora da Conceição e outras. É a mais antiga freguesia de
Alagoas. Para lembrar Calabar, existem: o chamado Alto da Forca, onde
dizem que ele foi enforcado, o Fórum, além de um clube, um bar e
restaurante que levam o seu nome. Mas, o importante mesmo é a luta dos
filhos da terra para resgatar a memória desse conterrâneo. São
publicados livros e outros periódicos, enaltecendo a sua figura. A
esperança é de que um dia, ele seja finalmente considerado Herói
Nacional, como foi Zumbi, outro que os portugueses também consideravam
como traidor.
Rumo à
Independência
O progresso do Sul da
Capitania de Pernambuco conhecido como Alagoas, fez com que sua
população fosse logo desejando a independência. Mas nada era fácil. No
início da segunda década do século XVIII, foi criada a Comarca de
Alagoas, sob a jurisdição da Capitania de Pernambuco, e nomeado o
primeiro Ouvidor Geral: José da Cunha Soares.
Por não existir cursos
jurídicos no Brasil, esse cargo era destinado a quem fosse mais letrado,
com espírito de liderança. Transformava-se em comandante da Justiça, da
Política e da Economia. E no período de mais de um século, entre 1711 a
1817 (ano da sua emancipação política), Alagoas teve 17
ouvidores-gerais.
Foi exatamente na segunda
metade do século XVIII, que surge Maceió, de um engenho de açúcar
denominado Massayó. A palavra é de origem indígena, significando terra
alagadiça, que deu origem ao riacho com o mesmo nome. O engenho, de
propriedade de Apolinário Fernandes Padilha, localizava-se na atual
Praça Dom Pedro II, com o engenho propriamente dito, a casa de purgar, a
senzala, a casa grande e a capelinha em louvor a São Gonçalo, que ficava
no meio do morro do Jacutinga (Ladeira da Catedral). Durou poucos anos.
Ficou em fogo morto e o povoando foi crescendo. Surgiram novos
moradores, que logo foram construindo suas casas e formando um arruado.
Em 5 de dezembro de 1815, o povoado é elevado a categoria de Vila,
desmembrando-se da Vila de Alagoas (atual Marechal Deodoro).
Surgiram ainda as
povoações de Anadia, Atalaia, Camaragibe, São Miguel dos Campos, Poxim
e Porto de Pedras. A Comarca tinha como sede a vila de Alagoas, atual
Marechal Deodoro, uma espécie de capital, já com suas Igrejas
monumentais, ainda hoje preservadas. Penedo, Porto Calvo e Santa Luzia
do Norte, eram as outras vilas, que continuavam crescendo e atraindo
novos moradores.
Ainda no século XIX
existiam em Alagoas as vilas de Água Branca, Mata Grande, Pão de
Açúcar, Traipu, Piranhas, Palmeira dos Índios, São Miguel dos Campos,
Quebrangulo, Assembléia (Viçosa), Imperatriz (União dos Palmares), São
José da Laje, Murici, São Luiz do Quitunde, Coqueiro Seco e Pilar.
A traição que deu certo
A Comarca de Alagoas já
esbanjava progresso, provocando ciumeira em meio as lideranças da
Capitania de Pernambuco. Nas duas primeiras décadas do século XIX, já
apresentava-se em condições de se tornar independente. Mas os donatários
não aceitavam. Afinal, era daqui que eles abocanhavam uma boa parcela da
arrecadação de impostos, além da grande produção de açúcar dos nossos
engenhos.
O Ouvidor Batalha, sempre
sonhava em transformar Alagoas em Capitania e, ser o seu primeiro
governador. Aproveitou a Revolução Pernambucana, que tinha como objetivo
libertar-se de Portugal e, iniciou seu plano. Os revolucionários já
haviam conquistado o apoio da Paraiba e Rio Grande do Norte. Faltava
Alagoas e Sergipe (Comarcas), além da Bahia e Ceará.
Um emissário foi enviado
do Recife a Salvador, para tentar conquistar esse tão sonhado apoio.
Passando por Alagoas, propagava os ideais revolucionários e conquistava
alguns adeptos. Mas o Ouvidor Batalha não se encontrava na sede da
Comarca e sim na vila de Atalaia, já em campanha em prol da emancipação
política de Alagoas.
O emissário que trouxe a
notícia para Alagoas e seguiu para Sergipe e Bahia, foi o Padre Roma.
Aqui, encontrou um apoio de peso: o Comandante das Armas, Antonio José
Vitoriano Borges da Fonseca, que atendendo ao pedido do Padre Roma,
autorizou a destruição dos símbolos de Portugal e colocou em liberdade
todos os presos. Passou por cima da autoridade maior da Comarca: o
Ouvidor Batalha. Escreveu ao Conde D’Arcos, governador da Bahia,
informando sobre os ideais da Revolução Pernambucana e seu apoio,
pedindo o dele. Não conseguiu. Arrependeu-se de ter seguido os conselhos
do Padre Roma. Era tarde demais.
Em Atalaia, o Ouvidor
Batalha, aproveitando os tumultos, escreve ao Conde D’Arcos
comunicando-lhe das medidas que resolveu tomar: desmembrou a Comarca de
Alagoas da jurisdição da Capitania de Pernambuco, enquanto durasse a
revolução, e auto-nomeou-se governador provisório. Contou com o apoio
que precisava, e venceu a batalha. Dias depois, Alagoas separou-se
definitivamente de Pernambuco. Mas ele não conseguiu o que tanto
sonhava: ser seu primeiro governador.
O decreto assinado por Dom
João VI, em 16 de setembro de 1817, emancipando Alagoas de Pernambuco,
transformando a Comarca em Capitania, estabeleceu como capital a vila de
Alagoas (atual Marechal Deodoro) e nomeando como primeiro governador, o
português Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, que acabara de governar
a Capitania do Rio Grande do Norte.
Ao desembarcar no porto de
Jaraguá, o governador encantou-se com a vila de Maceió. Foi recebido com
muitas festas e, hospedou-se no sobrado de um português na esquina das
ruas do Comércio e Livramento, onde hoje funciona a Ótica Flamengo.
Sua posse aconteceu na
matriz de Nossa Senhora da Conceição, na capital, numa solenidade com
muita pompa, autoridades diversas e muitos discursos. Mas o governador
não gostou muito do aspecto urbano da antiga vila, sempre priorizando
Maceió.
E essa opção pela vila ao
invés da capital, fez com que várias autoridades protestassem. Os de
Alagoas (Marechal Deodoro) não aceitavam sob hipótese alguma, a
instalação de repartições públicas na vila de Maceió, enquanto o próprio
governador e várias outras personalidades políticas, econômicas e
culturais, preferiam mesmo que os principais órgãos públicos fossem
instalados em Maceió, por ser mais desenvolvida que a capital, possuir
um movimentado porto e toda a infra-estrutura de uma capital. E assim
foi feito.
Melo e Póvoas instalou a
Junta de Administração e Arrecadação da Real Fazenda, o Quartel Militar
e a Alfândega. Ciumeira geral.
Maceió crescia a olhos
vistos. O governador, mandou que fosse elaborada uma planta urbana, para
proporcionar um novo visual a vila. O traçado das ruas e das praças e os
melhoramentos necessários. E assim surgiram as ruas do Comércio, do Sol,
Livramento, Boa Vista, Moreira Lima, Augusta, Nova, Alegria e as praças
Dom Pedro II e Martírios. O traçado continua o mesmo. Nunca houve
alargamento, mudando apenas a arquitetura das casas.
O governador afastou-se do
cargo em fevereiro de 1822, retornando à Portugal. Criou-se uma junta
governativa formada por Antonio José Ferreira, José de Souza Melo,
Nicolau Paes Sarmento, Manoel Duarte e Antonio de Hollanda Cavalcante,
que permaneceu até a independência do Brasil, quando a Capitania foi
transformada em Província.
A Província de Alagoas
Quando da independência do
Brasil, Alagoas já esbanjava progresso, tendo o açúcar, como seu
carro-chefe. Dezenas de engenhos produziam e exportavam através do Porto
de Jaraguá. Os governadores passaram a ser denominados presidentes. E o
primeiro deles, nomeado por Dom Pedro I, foi o pernambucano Nuno Eugênio
de Lossio, que instalou o Conselho de Governo e autorizou as eleições
para deputados e senadores.
O segundo presidente, foi
o mineiro Cândido José de Araújo Viana (Marquês de Sapucaí), que ficou
no cargo apenas cinco meses, período em que instalou o Correio
Provincial. É substituído por Miguel Veloso da Silveira Nóbrega e
Vasconcelos, que determinou a criação de câmaras municipais nas cidades
e vilas.
E novos governantes,
chegavam e saiam em pouco tempo. Eram baianos, pernambucanos, mineiros,
paulistas, gaúchos e de outras províncias, que não se adaptavam por aqui
e terminavam renunciando.
Novas vilas foram surgindo
nessa primeira fase de Alagoas como Província. Em 13 de outubro de 1831,
emanciparam-se de Atalaia, as vilas de Assembléia (atual Viçosa) e
Imperatriz (União dos Palmares), ambas na zona da Mata alagoana.
Também nesse período,
ocorreu a chamada Cabanada Selvagem, revolta dos índios de Jacuípe, na
região Norte da Província, contra o assassinato de seu cacique,
provocando muitos conflitos e assassinatos, além de destruição de
engenhos e fazendas.
Em 1831, surge o primeiro
jornal impresso de Alagoas, mais precisamente em Maceió: o Iris
Alagoense. Teve duração curta, porque o coronelismo imperava naquela
época. Seu principal redator sofreu um atentando, escapando por milagre
e, decidindo-se mudar-se para Recife. Depois, o nome foi substituido por
O Federalista Alagoense, já impresso em Maceió. A vila já estava com
ares de capital. Tinha até jornal, enquanto a capital propriamente dita
(Alagoas, atual Marechal Deodoro) entrava em processo de decadência. Em
1849, mais uma conquista de Maceió (já como capital): o primeiro
estabelecimento de ensino secundário: Lyceu Alagoano, ainda hoje
funcionando com nome original, depois de se chamado Colégio Estadual de
Alagoas.
Nos primeiros anos do
Brasil independente, Alagoas “fervia”. Eram constantes conflitos entre
brasileiros e portugueses. A Confederação do Equador, que explodiu em
Pernambuco, chegou por aqui, tendo o apoio do senhor de engenho Manuel
Vieira Dantas e sua mulher Ana Lins, de São Miguel dos Campos. Houve
muita perseguição aos revolucionários e ela entricheirou-se em seu
engenho em São Miguel dos Campos, lutando até o fim do conflito,
tornando-se uma das heroínas de Alagoas.
A notícia da abdicação de
Dom Pedro I, chegou a Alagoas e provocou mais brigas entre brasileiros e
portugueses. Os primeiros, representando a imensa maioria, em caminhada
pelas ruas de Maceió, atacam o Quartel, apoderando-se de munições e
chegam a prender lideranças portuguesas. Os manifestantes apoiavam a
abdicação, por ser Dom Pedro II, brasileiríssimo. Enfim, o trono do
Brasil, com um brasileiro.
Dessa época (1822-1831),
restam poucas reminiscências: Igrejas e conventos em Penedo, Marechal
Deodoro e Porto Calvo. Em Maceió, o antigo forte de São João, atualmente
um quartel do Exército, no Centro da cidade; o próprio traçado das ruas
(obviamente que, com as edificações com arquiteturas diferentes); o
porto de Jaraguá: a Igreja daquele bairro e, só. Tudo foi mudando aos
poucos, preservando-se apenas os monumentos mais importantes.
Maceió, capital
Desde os tempos do
primeiro governador, Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, Maceió já
esbanjava progresso, provocando ciumeira entre os habitantes da velha
Alagoas, a capital da Capitania e depois Província. O próprio
governador, passava mais tempo na vida do que na capital. E, decidiu
instalar as principais repartições públicas em Maceió.
As mais importantes
lideranças políticas daquela fase, eram: Tavares Bastos (na capital) e
Cansanção de Sinimbu (em Maceió). Chegou-se a se formar uma verdadeira
guerrilha, que ficou conhecida como Lisos e Cabeludos, provocando
tumultos generalizados e mortes.
No governo de Agostinho da
Silva Neves, a situação agravou-se. Ele também permanecia mais em Maceió
do que na capital da província. O ano de 1839 foi o pior de todo o
período dessa administração. O presidente, chegou a ser preso por ordem
do major Mendes da Fonseca, na capital. Solto, encaminhou-se ao porto do
Francês, com ordem para deixar Alagoas. Mas pediu ao condutor do navio
que fizesse o caminho de volta, dirigindo-se ao porto de Jaraguá. Ao
chegar, foi recebido com muita festa pela população, liderada por
Sinimbú, já auto-nomeado presidente da Província, enquanto na capital,
Tavares Bastos, considerava-se também, presidente. Mas o titular,
resolveu a questão de uma vez por todas. No dia 9 de dezembro de 1839,
assina o decreto transferindo a capital da velha Alagoas (Marechal
Deodoro) para Maceió. O fim de um sonho que tornou-se realidade, por
justiça mesmo. Afinal, a vila era muito mais importante do que a
capital da Província.
A cada dezembro, os
maceioenses comemoraram duas datas festivas: o dia 5, lembra 1815,
quando o povoado foi elevado a categoria de vila (município de hoje) e o
dia 9, a transferência da capital, a data mais importante, porque era o
acontecimento mais esperado naquela época.
Em 1859, Maceió recebe a
visita do Imperador Dom Pedro II, que inaugurou a Catedral
Metropolitana, com a bonita imagem da padroeira, Nossa Senhora dos
Prazeres, presenteada pelo Barão de Atalaia e trazida de Portugal. A
imagem representa os sete prazeres de Maria. Sua passagem pela capital
ficou na História. Ele hospedou-se no sobrado do Barão de Atalaia
(prédio anda hoje existente e preservado, que pertence a Aliança
Comercial, na Praça Dom Pedro II). Esse sobrado de dois andares era o
maior da cidade, mas seus moradores perderam a visão do mar, por causa
de uma intriga com o Barão de Jaraguá, que construiu um outro mais alto,
a sua frente (hoje, a Biblioteca Pública). O Imperador participou de
festas na capital, e seguiu viagem para Penedo, Traipu, Pão de Açúcar e
a cachoeira de Paulo Afonso, além de visita aos engenhos da zona da Mata
e a Colônia de Leopoldina.
Até as primeiras décadas
do século XX, Bebedouro era o bairro nobre da capital, com suas mansões.
Depois surgiu o Farol. A Avenida da Paz, no Centro, a beira-mar, era a
preferida para a construção de bangalôs, onde viviam as mais
tradicionais famílias da cidade. O Hotel Atlântico, foi durante muito
anos, um dos mais procurados pelos viajantes. Construido a beira-mar e
ao lado do riacho Salgadinho (limpíssimo), sempre foi um bonito exemplar
da arquitetura das primeiras décadas do século XX. Sua arquitetura foi
descaracterizada. O sobrado da família Machado, era outro exemplo de
beleza arquitetônica. Depois foi adquirido pela Universidade Federal de
Alagoas, para servir de Residência Feminina Universitária, passando logo
após a abrigar o Museu de Folclore Théo Brandão. Abandonado, o prédio
foi ruindo aos poucos e todo o acervo transferido para a antiga
Reitoria. Mas, foi recentemente restaurado, esbanjando toda a sua
beleza. A Avenida, era também o cartão-postal: praia limpa, com areia
branca. Palco do carnaval de rua, com o desfile de blocos e escolas de
samba, além de desfiles estudantís e militares, nas comemorações do Dia
da Independência e da Emancipação Política de Alagoas.
Os sobrados do Centro,
emolduravam a paisagem típica de uma capital provinciana. O Hotel Bela
Vista, na Praça dos Palmares, sempre foi o prédio de maior beleza
arquitetônica, com sua varandas, com vista panorâmica para o mar da
Avenida da Paz. Hoje é um edifício de 13 andares, que serve a
representação do Ministério da Saúde. Ao lado, onde estão os edifícios
do INSS, existia o antigo palácio do Governo, com quadro andares. A
Praça Sinimbú, era repleta de sobrados, onde vivia a burguesia. Em
frente o prédio da Linha de Bondes, com seu relógio. Foi derrubado, para
construir a Faculdade de Engenharia, depois Reitoria da Universidade
Federal de Alagoas, e atualmente, Espaço Cultural da Ufal.
Imaginem Maceió no início
do século XX, com seus sobrados, Igrejas e a população andando nas ruas
centrais! Os homens de terno, gravata e chapéus e as mulheres de
vestidos longos, esbanjando charme e elegância. Os bondes eram puxados
por cavalos. Só depois, chegaram os movidos a eletricidade. Faziam o
percurso entre o Centro, Trapiche, Bebedouro, Farol e Pajuçara. Até
1958, era esse o principal meio de transporte urbano. A alegria da
juventude, que estudavam nos colégios São José, Instituto de Educação,
Anchieta, Lyceu, Guido, Diocesano, Sacramento, Batista e outros. Depois
surgiram as “sopas”, uma espécie de micro-ônibus. Mas os bondes deixaram
saudade.
E Maceió nunca parou de
crescer. A cada censo realizado pelo IBGE, constata-se mais gente
vivendo na capital alagoana, que neste início de novo milênio, ostenta
uma população de mais de 800 mil habitantes. Novos bairros vão surgindo.
Mas surgem também, novas favelas, que já somam quase 100, fruto do êxodo
rural e do desemprego generalizado.
Os bairros da orla
marítima (Cruz das Almas, Jatiúca e Ponta Verde), que até a década de
1960, eram imensos sítios de coqueiros, foram atraindo moradores, com a
construção de edifícios de apartamentos. Hoje, formam um verdadeiro
labirinto de concreto. Mas existe uma lei municipal que proíbe a
construção de prédios a beira-mar com mais de seis andares. Esses
bairros só estão crescendo mais verticalmente (edifícios). Não existe
mais espaço para casas. Essas são construídas na parte alta da cidade,
como Barro Duro, Serraria, Tabuleiro do Martins e Benedito Bentes.
Surgem condomínios fechados, com verdadeiras mansões, como o Aldebaran e
Jardim do Horto.
Nos anos 60, a novidade
foi o Edifício Breda, com seus dez andares, onde a juventude sempre se
dirigia para subir até o último andar, de elevador (novidade) e apreciar
a beleza da orla marítima e das lagoa de Mundaú. Era ponto de encontro
para namorados. Mas também serviu para suicídio de muita gente. Ainda
nesse período, é construído o Edifício São Carlos, com 11 andares e 22
apartamentos, na Avenida da Paz, de frente para o mar. Foi o primeiro
edifício de apartamento da cidade. Depois, outra atração: a escada
rolante da Lobrás. Todos queriam experimentar, subindo na escada, sem
precisar dos batentes, e se deliciar com a beleza da loja e suas
mercadorias expostas.
A capital modernizou-se,
com edifícios comerciais e residenciais. Em 1989 ganhou seu primeiro
shopping center: o Iguatemi. A partir daí, foram surgindo outros. Só em
1998, dez deles foram instalados, de pequeno e médio portes, abrindo-se
assim 2 mil novos empregos diretos e 600 pontos de venda. O comércio
descentralizou-se, atingindo os vários bairros.
O tradicional bairro de
Jaraguá está sendo revitalizado. Seus sobrados, ruas estreitas e praças,
ganham o visual de antigamente. O imponente prédio da Associação
Comercial de Maceió, construido na década de 1920, foi restaurado. O
mesmo ocorreu com o prédio da antiga Alfândega (Museu da Imagem e do
Som), enquanto as ruas tiveram o asfalto retirado, para dar lugar ao
calçamento em pedras. O projeto também beneficia a praia da Avenida,
antigo cartão postal.
O Centro da cidade, deverá
ser revitalizado. Alguns prédios já foram, a exemplo do próprio Palácio
Floriano Peixoto (Palácio dos Martírios – sede do governo), do Instituto
Histórico, da Biblioteca Pública, da Aliança Comercial, Tribunal de
Justiça, Assembléia Legislativa, Academia Alagoana de Letras e Teatro
Deodoro, todos construídos no século passado.
A cidade detém um
bom lugar no ranking do turismo nacional. Na alta temporada de verão,
fica com seus hotéis e pousadas lotados. Navios de passageiros, chegam
ao Porto de Jaraguá, com centenas de estrangeiros. Os turistas visitam
as praias, lagoas, bares, restaurantes, mirantes, monumentos históricos
e adquirem o artesanato local. A vida noturna é bastante agitada.
Existem bares, restaurantes e boates espalhados por vários pontos. Mas
os destaques são: Stela Maris, Jatiúca, Ponta Verde, Pajuçara e Jaraguá.
Todos na orla marítima.
Guerras e guerrilhas
Alagoas sempre foi palco
de conflitos e sua fama de terra violenta correu o país. No século XIX,
surgiram vários desses conflitos. Na briga pela disputa da capital entre
Marechal Deodoro e Maceió, consagrou-se dois alagoanos: Cansanção de
Sinimbu e Tavares Bastos. Surgiu daí a chamada Guerra dos Lisos e
Cabeludos, respectivamente conservadores e liberais. Era uma espécie de
partidos políticos.
Os Lisos, comandados por
Tavares Bastos, denunciavam que Cansanção de Sinimbu queria dominar
Alagoas, formando uma verdadeira oligarquia. O dia 4 de outubro de 1844,
foi “um dia de cão” em Maceió. Os Lisos invadiram Maceió e comandaram um
tiroteio no Centro, que durou duas horas.
Ainda na década de 1840,
surgem os temidos irmãos Moraes, que, para vingar a morte do pai,
formaram um bando semelhante ao de Lampião, espalhando o terror por toda
Alagoas. Para alguém morrer, bastava que o bando desconfiasse que este
pertencia ao partido dos Cabeludos. A primeira vítima foi um tenente de
Quebrangulo.
Os irmãos Moraes, dividiam
o ódio pelos assassinos do pai, aos integrantes dos Cabeludos. Tentaram
matar o Barão de Atalaia, que diziam encontrar-se no Sertão de
Pernambuco. Não encontraram o alvo, mas mataram um rapaz inocente, que
estava na casa onde deveria se encontrar o Barão.
Durante a Guerra do
Paraguai, Alagoas enviou cerca de 3 mil homens para combate, inclusive
toda a família Mendes da Fonseca (Deodoro e seus irmãos). A mãe, dona
Rosa da Fonseca, vibrava com as notícias de vitória do Brasil, e
demonstrava essa alegria, exibindo panos brancos nas janelas de sua casa
na velha cidade de Alagoas. Mas três de seus filhos morreram em combate.
Para ela, um ato de heroísmo. No final, o Paraguai ficou destruído. O
que importava para o Brasil era mesmo acabar com aquele pequeno país,
que na época adotava um sistema semelhante ao socialismo do século XX. O
povo paraguaio, sempre teve espírito cívico. Quando surge algum ditador,
procura derrubá-lo do poder. Assim fizeram com Alfredo Stroesner e mais
recentemente com Raul Cubas. Ambos se refugiaram no Brasil.
Nas décadas de 1920/30, o
terror foi espalhado no Sertão alagoano com as sucessivas passagens de
Lampião e seu bando, que evitavam as cidades por onde o trem passava.
Mas, foi a polícia alagoana, que conseguiu acabar com essa fase de
violência, matando Lampião, Maria Bonita e quase todos os cangaceiros,
numa gruta, do outro lado do rio São Francisco, na localidade conhecida
como Angicos.
Os chefes políticos sempre
dominaram Alagoas, espalhando a violência em várias regiões. Sempre
ficavam impunes. Detinham o poder político e econômico. Muitos episódios
marcaram a História de Alagoas, envolvendo famílias violentas. Os Malta,
de Mata Grande, fizeram história, brigando entre si: Maia, de Pão de
Açúcar; Teixeira, de Chã Preta; Mendes, de Palmeira dos Índios; Novaes,
de Santana do Ipanema; Fidelis, de Pindoba; Calheiros, de Flexeiras;
Tenório, de Quebrangulo (de onde surgiu o lendário Tenório Cavalcante,
mais conhecido como o “homem da capa preta”, que migrou para o Rio de
Janeiro, aterrorizando a Baixada Fluminense, com sua famosa
metralhadora: a Lourdinha.
Essas famílias, brigavam
entre sí, por questões de terra e política. aterrorizando os moradores
das cidades, que, temiam ser mortos. Em Mata Grande, os Malta brigavam
entre primos, irmãos, tios e outros parentes, provocando tiroteios em
plena rua. Ninguém se atrevia a abrir a porta. Sempre foram temidos e
se orgulhavam disso. Pindoba, sempre foi dominada pelos Fidelis, que
aterrorizaram a pequena cidade. Não é mais. Muitos morreram, outros
estão presos e, os sobreviventes, já não seguem o que seus antecessores
fizeram. Matavam friamente os pobres coitados, que “olhassem
atravessado” para um deles. Mas, essa fase também vem acabando. Muitos
desses valentões já morreram, e os descendentes, já não mais seguem essa
atitude burra, em desuso no mundo moderno em que vivemos. Pindoba hoje é
comandada por um jovem fazendeiro, que não tem qualquer grau de
parentesco com os Fidelis. A paz estabeleceu-se na cidade.
Outro episódio que ficou
na história, ocorreu mais recentemente, envolvendo as famílias Calheiros
e Omena, com sucessivos crimes, aterrorizando Maceió. O cabo Henrique,
da Polícia Militar, para vingar a morte do pai, juntou seus irmãos (Omena)
para matar os integrantes de uma porção violenta da família Calheiros,
que assinam-se Cavalcanti Lins, com base na cidade de Flexeiras.
Assassinatos sucessivos entre as duas partes, eram manchetes dos jornais
na época.
No Sertão alagoano, surgem
dois personagens, que aterrorizaram o Estado com sucessivos crimes:
Floro e Valderedo. Iniciaram a matança por questão de vingança, e aos
poucos, os assassinatos foram se sucedendo, culminando com uma espécie
de bando, quase semelhante ao de Lampião.
Neste final de século,
surgiu um outro bando, que aterrorizou o Sertão. Era de Marcos Capeta,
um jovem revoltado, que assassinou dezenas de pessoas em várias cidades
de Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco. Sempre conseguiu fugir da
polícia. Mas foi morto pela PM baiana em agosto de 1999.
Vez por outra, surgiam
famílias que dominavam a política e a economia em seus municípios,
envolvendo-se em questões de terras, culminando com muita violência. Aos
poucos, o coronelismo vai acabando, graças a democracia, com a liberdade
de imprensa e as denúncias feitas, envolvendo figuras importantes do
mundo político e econômico, que acabam abandonando esse lado violento e
engajando-se ao mundo globalizado, competitivo e criativo, ao lado dos
chamados emergentes, que são pessoas pobres, que cresceram
economicamente e se tornaram líderes e poderosos.
Partidos e Imprensa
A segunda metade do século
XIX foi de agitação política. A nível nacional, surgem os partidos
Liberal e Conservador. Em Alagoas, foram criados os Luzias e Saquaremas,
instalados durante a presidência de José Bento da Cunha Figueiredo.
O partido dos Luzias,
utilizava-se do jornal O Tempo, para alimentar a sua política, com
idéias defendidas através de ataques ao presidente. Os Saquaremas,
tinham o jornal Timbre Alagoano, atacando o partido oposicionista.
Na presidência de Pereira
de Alencastro, esses dois partidos se dividiram. Os Luzias, formaram o
Partido Progressista e o partido Histórico. Esse último coligou-se pouco
tempo depois aos Saquaremas.
Antes da Abolição da
Escravidão, Alagoas já estava na luta por esse objetivo. Em setembro de
1881, foi instalada a Sociedade Libertadora Alagoana, que marcou época.
Detinha dois jornais: O Lincoln e o Gutemberg, ambos engajados na luta
pelo fim da escravidão.
O ideal republicano
começou a surgir com o jornal O Apóstolo, em 1871. Depois surgiu A
República. Em 1888, o jornalista João Gomes Ribeiro fundou o Centro
Republicano Federal de Maceió. Um ano depois, é proclamada a República,
exatamente por um alagoano.
A política em Alagoas
sempre foi clientelista. Existiam e ainda existem, verdadeiros “curais
eleitorais”, onde os chefes políticos mandam e demandam, comprando votos
de eleitores pobres e analfabetos. Aos poucos, esse critério vai
mudando. Mas ainda deverá demorar muito, para acabar de uma vez por toda
com toda a bandalheira que existe em ano eleitoral, onde o dinheiro está
acima de tudo.
No início do século XX,
dois irmãos dominaram o governo do Estado, como eleitos pelo povo:
Joaquim Paulo e Euclides Vieira Malta, formando o que passou para a
História como Oligarquia dos Malta. A família continuou dominando no
alto Sertão, elegendo prefeitos e deputados estaduais. Mas, foi se
dispersando e a cada eleição, seus candidatos vão sendo derrotados.
Nas décadas de 1930/40, os
Góes Monteiro, formaram outra oligarquia. Alagoas passou a ser conhecida
como “Alagóes”. Dois irmãos: Ismar de Goes Monteiro e Silvestre Péricles
de Goes Monteiro, foram governadores (um, especificamente Interventor,
na ditadura de Vargas e o segundo, governador eleito pelo povo).
Já nos anos 70, 80 e até
quase o final de 90, uma outra oligarquia dominou o Estado. Mas não uma
familiar e sim, de amigos: Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira.
Começaram eleitos indiretamente, durante a ditadura militar. Depois,
foram ás urnas e ganharam. Quando não se candidatavam, apresentavam, um
candidato, que era facilmente eleito. Só perderam e desapareceram da
cena política, nas eleições de 1989.
Essas oligarquias estão
acabando. Os próprios coronéis da política, já se foram. Surgem os
emergentes. Alguns de direita, outros de esquerda. São cidadãos que
enriqueceram com esforço próprio, na agropecuária, na indústria, no
comércio ou na prestação de serviços. Famílias tradicionais da política
alagoana, como os Malta, de Mata Grande; Torres, de Água Branca;
Bulhões, de Santana do Ipanema; Dantas, de Batalha; Sampaio, de Palmeira
dos Índios; Vilela, de Viçosa; Moreira, de Capela; Gomes de Barros, de
União dos Palmares, e tantas outras, estão perdendo espaço para novas
lideranças políticas.
O primeiro jornal impresso
que surgiu em Alagoas, foi o Iris Alagoense, em 1831, em Maceió, que,
ainda não capital da Província. Foi o primeiro passo para o avanço dessa
área, com a criação de outros jornais, tanto em Maceió, como em Penedo,
Marechal Deodoro e, depois: Viçosa, já na segunda metade do século XIX.
Até mesmo nos engenhos, havia a preocupação com a cultura. No Bananal,
do coronel Quintiliano Vital, em Viçosa, foi publicado o jornal O
Camponês, com notícias envolvendo mais as atividades agrícolas. Seu
primeiro número saiu exatamente no dia da Abolição da Escravidão. Seus
editores não sabiam desse fato. A notícia chegou depois.
O jornal mais antigo ainda
em circulação (quinzenal), é O Semeador, da Arquidiocese de Maceió,
fundado em 1913. O Jornal de Alagoas, circulou durante 85 anos,
paralisando suas atividades em 1993. Atualmente o diário mais antigo é a
Gazeta de Alagoas, da Organização Arnon de Mello, com 65 anos de
existência e o de maior circulação no Estado.
Funcionam em Maceió neste início de século, três jornais diários:
Gazeta de Alagoas, O Jornal e Tribuna de Alagoas, pela ordem os de maior
circulação. São cinco emissoras de Televisão: Gazeta (Globo), Pajuçara
(SBT), Alagoas (Bandeirantes), Massayó (MTV) e Educativa. São dezenas de
rádios AM e FM distribuidas entre a capital e cidades do interior.
Nepotismo em Alagoas
O nepotismo (emprego
público para parentes) é uma prática adotada no Brasil desde o seu
descobrimento. Na primeira carta enviada por Péro Vaz de Caminha ao rei
de Portugal, depois de vários elogios a nova terra, ele pede um emprego
para um parente seu.
Em Alagoas, logo que foi
proclamada a República, essa prática aparece. O presidente Deodoro da
Fonseca, nomeia seu irmão Pedro Paulino, para governador. De lá para cá,
a prática é tão comum, que os pais já criam os filhos pensando num
emprego público, que virá logo que ele complete a maioridade. E há casos
até mesmo de falsificação de documentos, aumentando-se a idade, para que
esse filho ingresse logo no serviço público e torne-se um marajá.
Existe nepotismo
abertamente, nos três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Famílias inteiras, usufruem do dinheiro público. Quando surge uma
denúncia na imprensa, com a relação de integrantes de famílias de
deputados, desembargadores, conselheiros do Tribunal de Contas,
governadores, secretários de Estados e outras lideranças, o escândalo
está formado, mas logo surge outro, esquecendo-se daquele. Ninguém perde
um centavo da renda. Continuam marajás, usufruindo das benesses do
governo.
Na Assembléia Legislativa,
cada um dos 27 deputados têm direito a 30 assessores. Um escândalo. Os
gabinetes não comportam essa quantidade. Trabalham mesmo, no máximo,
cinco. Os demais só aparecem no local para receber o cheque-salário. Boa
parte desses assessores é formada por irmãos, primos, cunhados, filhos,
sobrinhos e demais parentes dos deputados. O mesmo esquema é montado nos
Tribunais de Justiça e de Contas. São ao todo, 1.500 funcionários
públicos beneficiados com altos salários, que abocanham mais da metade
da folha de pagamento. Uma vergonha nacional.
A bandalheira sempre foi
escancarada nas prefeituras do interior, onde os prefeitos empregam
parentes nos mais diversos cargos, sem qualquer qualificação
profissional. Empregavam. Não empregam mais. A Lei de Responsabilidade
Fiscal aprovada pelo Congresso Nacional, de autoria do Executivo, pune
os corruptos. Não se pode gastar mais do que arrecada. A torneira está
fechada. Não existe dinheiro do governo federal para o que sempre
fizeram. Tem que cortar despesas e, muitos já estão demitindo empregados
e acabando com certas mordomias.
Os pioneiros
Na época da colonização,
os pioneiros foram: o alemão Cristovão Lins, fundador dos três primeiros
engenhos, em Porto Calvo, e o português Antônio de Barros Pimentel, que
fundou engenhos nos vales dos rios Camaragibe e Santo Antônio. Depois
foram surgindo novas famílias, como os Mendonça, com seus engenhos de
açúcar e fazendas de criação de gado.
Mas só no século XIX,
surge a indústria urbana em Alagoas. Em 1859, o Barão de Jaraguá, fundou
a primeira fábrica de tecidos: a de Fernão Velho, ainda hoje existente.
É o avanço da industrialização em Alagoas. Depois foram surgindo outras
fábricas têxteis, como a de Saúde, da família Nogueira (Maceió): Vera
Cruz, em São Miguel dos Campos (Contonifício João Nogueira) ainda
funcionando: Alexandria, em Maceió, da família Lôbo e outras em Penedo e
Pilar. Rio Largo cresceu com o avanço dessa atividade, através do
comendador Teixeira Basto (duas fábricas), avançando mais ainda depois
da administração do seu genro Gustavo Paiva, um verdadeiro construtor do
progresso de Alagoas, que implantou naquela cidade, a mais avançada
legislação trabalhista do Estado. Os operários tinham moradia, com
conforto e toda infra-estrutura (energia elétrica e água canalizada),
escolas de boa qualidade para os filhos; assistência médica; cinema,
clube social, quadras de esportes, com piscina (uma novidade na época) e
a garantia de salários e dia e todos os benefícios sociais possíveis.
Outro pioneiro da
indústria em Alagoas, foi o português Jacintho Nunes Leite, que
estabeleceu-se em Bebedouro (ainda existe o casarão da família, bem
preservado). Instalou indústrias (foi proprietário da fábrica de Fernão
Velho); Os primeiros bondes da capital; energia elétrica e água
canalizada, em Bebedouro e outros benefícios. O bairro, era naquela
época (e até as primeiras décadas do século XX) o mais nobre de Maceió.
Verdadeiras mansões emolduravam a paisagem que margeava a lagoa de
Mundaú, proporcionando um bonito visual aos passageiros do trem que
passava pelo local.
Na última década do século
XIX, é a vez das usinas. Já havia sido abolida a escravidão. Os engenhos
estavam enfrentando uma grave crise, com os escravos livres, tendo que
ser remunerados. Os velhos coronéis abandonavam a atividade, procurando
outras mais rentáveis e que empregasse menos gente.
Em 1891, surge a primeira
usina de Alagoas: a Brasileiro, em Atalaia, fundada pelo Barão de
Vandesmant, um francês, que apaixonou-se por Alagoas e aqui implantou
uma moderna tecnologia, com a usina dispondo de toda a infra-estrutura
tecnológica importada da Europa. E, deu um novo perfil a atividade: os
trabalhadores passaram a ser operários, com moradia bem estruturada,
assistência médica, extensiva aos familiares: legislação trabalhista
avançada e aposentadoria. A usina funcionou até 1958.
Na mesma década de 1890,
surge a segunda usina: Leão, no antigo Engenho Utinga, em Rio Largo. A
família Amorim Leão, também avança no tempo, implementando um novo
estilo de produção, com base no incentivo ao trabalhador. Venceu. Ainda
hoje a usina é comandada pela família, já na quinta geração e misturada
a família francesa Dubeaux.
A terceira usina fundada
em Alagoas, foi em São José da Laje: Serra Grande, aproveitada de um
antigo engenho banguê. O coronel Carlos Benigno Pereira de Lyra, foi
outro pioneiro na industrialização alagoana. Pernambucano, fixou-se com
a família naquela região e fez História. Dava total assistência aos seus
empregados, produzia um açúcar de excelente qualidade, e já com a usina
em poder de seu filho, Salvador Lyra, na década de 1930, lançou-se no
mercado, o álcool como combustível, com a marca Usga (iniciais da
usina). Foram instaladas bombas em São José da Laje, Maceió e Recife. Um
sucesso, que incomodou as multinacionais. Com o poder de pressão, esses
estrangeiros exigiram do então presidente Getúlio Vargas que acabasse
com esse projeto da usina alagoana. Foram atendidos. E o álcool deixou
de ser combustível, para só retornar na década de 1970, com a criação do
Proálcool (Programa Nacional do Álcool), pelo então presidente Ernesto
Geisel.
Também no início do século
XX, surge outro verdadeiro pioneiro da indústria em Alagoas: o cearense
Delmiro Gouveia, que havia saído do Recife, depois que provocou muita
confusão por lá, fruto de sua audácia, inteligência e criatividade, que
incomodavam os empresários e políticos locais. Lá, na capital
pernambucana, ele fundou o Mercado do Derby, uma espécie de shopping
center do século XIX. Desembarcando em Penedo, navegou rio acima até
chegar próximo à Cachoeira de Paulo Afonso, encantando-se com a paisagem
e resolvido ficar. Bem próximo, no povoado Pedra, fundou a primeira
fábrica têxtil do Sertão alagoano. Também incomodou os estrangeiros, já
que concorria com a linha Corrente (inglesa). Implantou uma verdadeira
revolução industrial em plena região da seca. Venceu. Pedra tornou-se
uma cidade industrial, com a vila operária e toda a infra-estrutura
moderna, onde os operários eram bem tratados pelo patrão, recebendo toda
assistência social possível. Luz elétrica, um avanço no início do século
XX. Nem a capital dispunha desse benefício. E Delmiro levou a energia
elétrica a Pedra, através da Cachoeira de Paulo Afonso, onde ele fundou
a primeira Hidrelétrica do Nordeste, hoje ainda esbanjando progresso e
tecnologia. Foi assassinado em 10 de outubro de 1917, quando lia jornal
na varanda de seu chalé. O crime chocou Pedra e todo o Sertão alagoano.
Dois suspeitos, foram presos (ex-empregados da fábrica). Mas a dúvida
continuava. Ninguém achava que fossem aqueles pobres coitados,
admiradores do ex-patrão e até compadres. Tinha “costa quente” por trás
de tudo. Mas foram esses ex-operários que pagaram a conta. Um morreu na
cadeia e o outro ficou até o fim da sua pena. Mas a família nunca se
conformou e reabriu o processo, já depois dele morto. Venceu. Foi a
primeira sentença pós-morte, onde o culpado foi julgado inocente. Coisas
de Alagoas mesmo.
A fábrica de Delmiro
Gouveia passou por vários donos. Na década de 1980, chegou ao estágio de
pré-falência, levando o proprietário ao suicídio. Mas, recuperou-se. Foi
adquirida pelo empresário Carlos Lyra, e hoje é uma das mais modernas do
país.
A Era Vargas
Quando o Brasil foi
sacudido pela Revolução de 1930, levando o gaúcho Getúlio Vargas ao
poder, Alagoas era governada por Álvaro Paes. A agitação política se
restringia mais as grandes cidades. Inicia-se a fase dos interventores
nomeados pelo presidente da República. Foram nove, em 15 anos da Era
Vargas, que exerciam o cargo obedecendo as decisões do chefe da Nação.
O primeiro desses
interventores foi o sergipano Hermílio de Freitas Melro, que passou um
ano no poder, sendo substituido por Luiz de França Albuquerque, alagoano
de Viçosa, seguido do capitão Tasso Tinoco, Afonso de Carvalho e
Temístocles Vieira de Azevedo. As eleições para deputados são realizadas
em 1933, elegendo-se seis alagoanos: Manoel de Goes Monteiro, Izidro
Teixeira de Vasconcelos, José Afonso Valente de Lima, Antonio de Melo
Machado, Armando Sampaio Costa e Álvaro Guedes Nogueira, representantes
do Estado, na Assembléia Constituinte, que promulgou a Constituição de
1934.
Quem mais se destacou como
interventor, foi o jurista Osman Loureiro, também eleito governador nas
eleições de 1935, permanecendo no cargo até 1937 quando deu-se o Golpe
do Estado Novo. Nesse período de dois anos, como representante eleito
pelo povo, fez várias obras e liberou recursos para as áreas de
educação, saúde e segurança pública. Depois, já na ditadura, voltou a
ser interventor.
Passaram ainda pela
interventoria: José Maria Correia das Neves, Ismar de Goes Monteiro e
Antonio Guedes de Miranda. Acaba assim a Era Vargas em Alagoas,
iniciando-se o processo de redemocratização, com as eleições gerais de
1946.
A ditadura de Vargas
provocou muitas prisões de alagoanos, que defendiam a democracia. O
escritor Graciliano Ramos, já famoso na época, foi preso no Rio de
Janeiro. Esse episódio, gerou o livro Memórias do Cárcere, um
best-seller.
Apesar da ditadura,
o povo adorava Getúlio, que implantou a Legislação Trabalhista, criou o
salário mínimo (muito valorizado na época) e o voto da mulher. Alagoas
viveu nas interventorias, satisfatoriamente. No Estado Novo não existia
Congresso nem Assembléia. Portanto, gastos com deputados e senadores não
era preocupação do governo. A arrecadação servia para pagar
suficientemente os salários dos funcionários públicos. |